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Uma pedrada que custou duas vidas


By admin - Posted on 17 February 2010

Jornal O Globo - 07/03
UMA PEDRADA QUE CUSTOU 2 VIDAS

Assaltantes atacam ônibus na BR-101,
provocam acidente e dois passageiros morrem

Um acidente de ônibus provocado por um grupo de bandidos ontem, por volta das 3h, no trecho Niterói-Manilha da BR-101, na altura de Itaúna, em São Gonçalo, causou a morte de dois passageiros. O veículo, da Viação 1001, saiu da Rodoviária Novo Rio às 2h30m e seguia para Campos. Segundo passageiros, um bandido jogou, da margem da estrada, uma pedra no ônibus, fazendo com que o motorista perdesse o controle. O veículo cruzou a pista sentido Rio da BR-101 e caiu dentro de uma vala em frente à Rua Venceslau Alves da Costa. Depois do acidente, os bandidos tentaram assaltar os passageiros, mas acabaram indo embora com a chegada da polícia. Um dos principais acessos para a Região dos Lagos, a BR-101 está na lista de rodovias federais que o governo pretende entregar à administração da iniciativa privada, em troca da cobrança de pedágio.
Alessandra de Freitas Falcão, de 25 anos, cabeleireira, moradora de Copacabana, e Jamir Evangelista da Silva Júnior, de 23, trainee da Viação Expresso do Sul, estavam nos primeiros assentos do ônibus e morreram. Outras 18 pessoas que estava no ônibus ficaram feridas e foram levadas para hospitais em São Gonçalo, Niterói e Rio Bonito. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, oito bandidos participaram da tentativa de assalto.
Muito ferido, o motorista João José Granga foi retirado das ferragens depois de duas horas de trabalho da equipe de resgate do Corpo de Bombeiros. A pedra atirada pelos bandidos teria acertado o seu rosto. O ônibus levava 33 passageiros. Poucos minutos antes do acidente, uma patrulha da Polícia Rodoviária passou pelo local do ataque.
- Recebemos um telefonema dizendo que bandidos haviam colocado um cone na pista. Passamos pelo local indo na direção de Campos e vimos o cone na pista oposta. Com medo de uma emboscada, resolvemos seguir em frente e fazer o retorno mais à frente. Dez segundos depois recebemos o chamado falando do acidente com o ônibus - disse o policial rodoviário Marcelo Varella.
Moradores disseram a policiais que os oito homens foram vistos comemorando o acidente num bar do bairro. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, bandidos costumam agir de maneira semelhante no trecho da BR-101 próximo a Guaxindiba e na Niterói-Duques, na altura de Itaboraí. Presente ao local do acidente, um funcionário da Viação 1001 que não quis de identificar criticou a Polícia Rodoviária Federal:
- Os motoristas reclamam diariamente, mas a polícia não faz nada.

Pista é fechada e trânsito engarrafa

Por causa do acidente, a pista da BR-101 sentido Rio ficou fechada das 9h50m às 10h30m, para a retirada do ônibus, causando um engarrafamento de três quilômetros. Jiovani da Silva Gonçalves, marido de Alessandra Falcão, chegou ao local do acidente por volta das 10h. Muito abalado, teve de ser atendido pelos bombeiros.
- Eu disse para ela pegar um lugar no meio do ônibus. Mas ela disse que preferia ir na frente para ficar sozinha - contou ele aos policiais.
O casal tem uma filha de 7 anos. Moradores de Bonsucesso, Cláudia dos Santos e Luís Pereira da Silva estão entre os 18 feridos no acidente de ônibus. Os dois, que são casados, estavam indo visitar parentes em Campos. Feridos na testa, os dois foram levados para o Hospital de Itaboraí. Luís foi ameaçado por um bandido depois do acidente.
- Ele entrou no ônibus e disse que ia levar tudo o que a gente tinha. Eu disse que estava todo mundo ferido e ele desistiu. Tinha um outro armado do lado de fora do ônibus. Depois que eles foram embora eu ouvi um tiro - disse ele.

Luís só lembra que os bandidos estavam sem camisa e de bermuda.

Fomos parar perto do banheiro. Sorte que todo mundo se ajudou. Vi a morte passar na minha frente - lembrou Cláudia.
Ela disse que o ônibus havia escapado de uma blitz falsa pouco antes na Avenida do Contorno, que dá acesso à BR-101. Motoristas e passageiros reclamam dos assaltos na BR-101. Apesar disso, o inspetor Hélio Dias, da assessoria de comunicação da Polícia Rodoviária Federal, nega que haja falta de policiamento na via.
- O policiamento na rodovia é dinâmico, não fica estático. Estamos sempre rodando - disse ele.
Segundo Dias, a PRF, que é responsável pelo patrulhamento na BR-101, vem fazendo operações conjuntas com a Polícia Militar. O resultado dessas ações seria a redução do índice de acidentes. O comandante do 7º BPM (São Gonçalo), coronel Marcos Jardim, no entanto, disse que a PRF dificulta a ação da PM nas rodovias federais.
- Não existe estreitamento de relações entre a Polícia Rodoviária e a PM. Fazemos apenas um trabalho preventivo nos acessos. Não temos autorização para fazer operações repressivas, de revista a suspeitos, ao longo da rodovia. Não tenho conhecimento de nenhuma operação conjunta com a PRF. Segundo ele, a PM deveria poder agir na rodovia federal sem autorização prévia da PRF:
- Nosso efetivo é infinitamente maior que o da Polícia Rodoviária, que possui poucos homens para policiar as rodovias - disse.
As estatísticas, segundo o coronel Jardim, são a maior prova da fragilidade do policiamento nas rodovias:
- Proporcionalmente, a maioria dos roubos de veículos, tanto em São Gonçalo quanto na Baixada Fluminense, ocorre nas rodovias federais, onde a PM não pode atuar.
A Polícia Militar faz um policiamento preventivo na Niterói-Manilha em dias de grande fluxo de tráfego, sobretudo nos feriadões. Os carros da PM ficam estacionados nos acessos dos bairros para evitar arrastões quando ocorrem engarrafamentos. O policiamento não é feito ao longo da rodovia por tratar-se de uma via expressa federal.
A tentativa de assalto ocorreu no trecho da Niterói-Manilha próximo ao bairro do Salgueiro, um dos principais redutos de traficantes de drogas na cidade. Costumam se esconder no lugar traficantes de favelas do Rio, como o Morro da Mineira.
O bairro só tem um acesso, que é permanentemente vigiado pelos bandidos. Quando a polícia chega, soa um alarme. Quando a repressão é grande, os bandidos fogem pelo mangue que cerca o lugar.

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